12.4.07

a imagem primeiro, depois o poema - dois


o meu coração respirou todo o ar e
segue caminho por aí pairando, se o
meu coração não quiser, não vai descer
ao peito nunca mais, nem para amar,
nem para esquecer que um dia decidiu
calar-se e fugir de tudo, desistindo



palavras de valter hugo mãe, imagem de rui effe

11.4.07



no jornal de letras que hoje comprei sai uma matéria de rita silva freire sobre a estreia de vasco monteiro na galeria módulo, em lisboa. duas imagens foram o suficiente para me fascinar o suficiente para procurar na internet mais informação. fiquei contente por encontrar uma página pessoal com uma boa colecção de trabalhos de onde retiro estes dois belíssimos. vou fazer todos os esforços para poder ir ver esta exposição na minha passagem breve por lisboa a caminho ou na volta da arábia saudita
amanhã durmo em lisboa, não sei ainda onde, espero, no entanto, ver-te, nem que seja de passagem
na marginal, hoje, estranhamente mas ainda bem, as gaivotas montaram esquemas e divertiram-se. alguns bichos sairam do mar para ver, aflitos com não conseguirem respirar fora de água, andavam numa correria dentro e fora das ondas a rirem muito, como todos nós
também fui aluno de uma universidade privada que deu uma certa barraca, a universidade moderna que, a dada altura se viu catapultada para os jornais por uma miríade de histórias mal contadas (e que para sempre ficaram mal explicadas ao público em geral) que envolviam uns mercedes e outras coisas mais. para mim, e para os meus colegas, isso serviu para que nos olhassem de canto, desconfiados da validade dos nossos diplomas como se chegássemos de mercedes novos todas as semanas. esse estigma não se apagou. muitos anos depois, dizer que tirei o curso na universidade moderna ainda dá direito a ouvir umas bocas foleiras, por mais que muita gente se queira convencer de que já não é coisa de que as pessoas se lembrem.
o que está a acontecer com a universidade independente é muito pior, porque com a moderna nunca esteve em causa a qualidade dos cursos. por este motivo, acredito que quem está licenciado por aquela instituição, e à semelhança do que se passa com quem se licenciou pela moderna, sofrerá longamente as consequências do que acontece agora. como acredito que ficarão melhor os que, agora, possam ir acabar os cursos noutras instituições e obter um diploma com uma tutela diferente.
por estas e por outras, estando em causa a credibilidade profissional de milhares de pessoas, não compreendo o silêncio de sua excelência o primeiro-ministro licenciado em engenharia civil. toda e qualquer coisa que possa prejudicar, mais ainda, a imagem da universidade independente no que respeita à qualidade académica tem de ser sumariamente erradicada. e, por isso, o primeiro-ministro deveria dar o exemplo, atempadamente mostrando e provando a toda a gente que se licenciou com mérito dentro da mais estrita legalidade e assim não permitir que se levante muito tempo a ideia de que alguém ali poderá ter adquirido um diploma por razões obscuras

9.4.07


na próxima sexta-feira, dia treze, às treze horas, se tudo correr bem, embarco no avião privado de sua alteza real o príncipe fayçal, rumo à arábia saudita. integrarei uma comitiva do ministério da cultura que visitará aquele país durante cinco dias. tenho medo de andar de avião, mas não o suciente para perder uma oportunidade de contactar de perto com a grande super-potência do petróleo e vislumbrar, de alguma forma, o modo de vida de um povo tão distinto do nosso com uma cultura milenar e esplendorosa.
a foto é da mesquita de meca, na verdade, não sei se o programa inclui uma visita a essa quase mitológica cidade, mas será talvez o lugar que mais gostaria de conhecer

venha a nós o vosso reino

na rua independência da guiné, vila do conde, o compasso passou composto por raparigas muito novas, de óculos de sol na cabeça, sem paramentos, com um saquinho para recolherem donativos e um paleio básico tipo aleluia aleluia. parecia mais uma coisa de brincadeira, o que me deu a ideia de, no próximo ano, fazer o mesmo e meter ao bolso o dinheiro dos católicos tão crentes. por outro lado, a colheita deve ser maravilhosa, gostaria de saber se há contagem exacta desse dinheiro e se a igreja anuncia aos fieis quanto rendeu a coisa e, sobretudo, o que pensa fazer com a riqueza. hummmm, que grande ideia, aleluia irmão, cristo ressuscitou, passa para cá uma nota

agora é a sério - vinte - esta manhã acordei com isto a dar no mcm e a minha mente estagnou, temo que os danos sejam irreversíveis. que franceses maus

estes são a minha susana e o meu luís

8.4.07

coisas tolas antes da meia-noite

quero namorar com alguém,
não quero namorar com ninguém,
quero namorar com alguém,
não quero namorar com ninguém,
quero namorar com alguém,
quero quero quero,
não quero namorar com ninguém,
quero namorar com alguém,
não quero nada, não quero,
quero muito namorar com alguém,
não quero ninguém e não quero e não quero,
quero namorar com alguém,
alguém quer?
não quero, não quero ninguém,
não quero, não quero nada, não quero,
quero namorar com alguém, é verdade,
esta é que é a verdade, não quero,
quero, quero, só estou é com medo,
não estou nada, lá tenho medo dessas coisas,
não quero, pronto,
queroooooooooooooooooooo,
não,
quero namorar com alguém, ok, quero,
e quero e quero e quero,
nada, nada mesmo, só estou a gozar,
queria tanto, mas nada, só perda de tempo,
e nada,
quero nada namorar com alguém,
quero muito namorar com alguém,
não quero namorar com ninguém,
quero mesmo namorar com alguém,
não quero candidaturas,
não quero ninguém, quero,
quero candidatiras, não,
quero, quero, quero ninguém, quero
beijos e abraços e boca, quero,
não quero ninguém,
quero namorar com alguém,
quero, já, namorar não
sim, namorar com alguém

a páscoa é uma seca

socorro,
ninguém me quer,
ninguém gosta de mim

7.4.07

smartini - sugar train
página oficial aqui
myspace aqui
distribuição do disco pela compact records aqui
ao vivo aqui

sugar train é o título do longa duração de estreia dos smartini, um projecto de caldas das taipas - ali metido entre braga e guimarães - que prima pelo rock de guitarras ao jeito dos anos 70/80, com referências para gurus como sonic youth, dinosaur jr, the stooges, yo la tengo, entre outros.
são oito temas cantados em inglês que tendem para uma energização fulgurante. amantes do noise, buscam a intensificação das guitarras através de avanços e recuos inteligentes, criados como se fossem investidas de inspecção de terreno e ataque. o resultado é um trabalho de grandes modulações que tanto se adocica como se amarga. muito eficaz nesse resultado, sugar train é o típico disco de rock posterior a sonic youth, um disco que pode apelar a algum tom mais progressivo, mas que resiste sobretudo por aquele espectro de texturas que lhe conferem uma destreza de humores cativante.
em portugal poderemos encontrar nos antigamentes um projecto que se ligará a este pela busca de um certo sónico português, os more república masónica. mas também será possível familiarizá-los com os novos linda martini, por exemplo. neste sentido, é mais uma prova de que o rock propriamente dito está de volta e está em grande força no rectângulo nacional. com nomes como the vicious five, dapunsportif, linda martini, mundo cão, x-wife, e agora os smartini, o país do fado pode candidatar-se seriamente a ser um caso valioso para o rock contemporâneo.
sugar train é uma edição de autor que será posta à venda a partir do dia 16 deste mês com distribuição da compact records.
entretanto, a banda apresenta-o ao vivo no dia 20, n' o meu mercedes, porto, e a 21 no musicbox, lisboa.
podem encontrar pormenores práticos em relação à aquisição e prévia escuta de sugar train nas ligações que acima coloquei.
eis um disquinho para nos alegrar a páscoa, isso sim
nem sempre te vejo, nem sempre me pertences ao absoluto conceito dos olhos. prefiro ficar pelo escuro, quando é assim. esperar ouvir-te, garantir que é seguro perscrutar o espaço, porque então estarás presente. hoje, um dia estranho, sei que está sol mas habituo o coração às trevas e penso só nos dias a seguir. quando vieres e pudermos demorar juntos sobre a cama de água a rir de tudo

5.4.07


é por estas e por outras que estes moços têm feito bom humor, porque levam a actualidade a sério e assumem as suas posições com frontalidade

mão morta - lautréamont - pub da boa

MALDOROR
por
MÃO MORTA

11 e 12 de Maio
Theatro Circo - Braga


A partir de “Os Cantos de Maldoror”, a obra-prima literária que Isidore Ducasse, sob o pseudónimo de Conde de Lautréamont, deu à estampa nos finais do séc. XIX, os Mão Morta, com os dedos de alguns cúmplices, estruturaram um espectáculo singular onde a música brinca com o teatro, o vídeo e a declamação.

Aí se sucedem as vozes do herói Maldoror e do narrador Lautréamont, algumas imagens privilegiadas das muitas que povoam o livro, sem necessidade de um epílogo ou de uma linearidade narrativa, ao ritmo da fantasia infantil – o palco é o quarto de brinquedos, o espaço onde a criança brinca, onde cria e encarna personagens e histórias dando livre curso à imaginação.

Em similitude com a técnica narrativa presente nos Cantos, a criança mistura em si as vozes de autor, narrador e personagem, criando, interpretando e fazendo interpretar aos brinquedos/artefactos que manipula as visões e as histórias retiradas das páginas de Isidore Ducasse, dando-lhes tridimensionalidade e visibilidade plástica. O espectáculo é constituído pelo conjunto desses quadros/excertos, que se sucedem como canções mas encadeados uns nos outros, recorrendo à manipulação vídeo e à representação.

Como um mergulho no mundo terrível de Maldoror, povoado de caudas de peixe voadoras, de polvos alados, de homens com cabeça de pelicano, de cisnes carregando bigornas, de acoplamentos horrorosos, de naufrágios, de violações, de combates sem tréguas… Sai-se deste mundo por uma intervenção exterior, como quem acorda no meio de um pesadelo, como a criança que é chamada para o jantar a meio da brincadeira – sem epílogo, sem conclusão, sem continuação!

INTERVENIENTES
Texto Original: Isidore Ducasse dito Conde de Lautréamont;
Selecção, Versão Portuguesa e Adaptação: Adolfo Luxúria Canibal;
Música: Miguel Pedro, Vasco Vaz, António Rafael e Mão Morta;
Encenação: António Durães;
Cenografia: Pedro Tudela;
Figurinos: Cláudia Ribeiro;
Vídeo: Nuno Tudela;
Desenho de Luz: Manuel Antunes;
Interpretação: Mão Morta (Adolfo Luxúria Canibal – voz / Miguel Pedro – electrónica e bateria / António Rafael – teclados e xilofone / Sapo – guitarra / Vasco Vaz – guitarra e xilofone / Joana Longobardi – baixo e contrabaixo);
Produção: Theatro Circo e IMETUA – Cooperativa Cultural

Mais datas agendadas: 19 de Maio em Portalegre

Promoção:
Raquel Lains Móvel: 91 722 17 31Email:
raquellains@netcabo.pt e promo@raquellains.com
Myspace: www.myspace.com/raquellains Website (brevemente): www.raquellains.comMorada: Rua Saraiva de Carvalho, n.º226, 1º dto 1250-245 Lisboa

é fácil fazer posts maravilhosos simplesmente mostrando o trabalho do esgar acelerado. este é o nº três das «fotos de família». vejam o blogue dele

o concerto do bonnie prince billie foi uma desilusão. confesso que saí um bocado antes de acabar

4.4.07

inland empire - depois das três longas horas


ficou claro, depois do que disse ontem, que sou um admirador convicto do trabalho de lynch e que esperava de inland empire uma surpresa capaz de me animar para o cinema durante muito muito tempo. bem, só o reitero porque, depois das três longas horas do filme, me deu tal ataque de irritação que apenas um realizador muito íntimo poderia merecer-me. qualquer outro realizador que tivesse assinado este filme - talvez com a excepção de mais dois ou três nomes - teria feito com que eu me levantasse e saisse porta fora, como aconteceu com tanta gente ontem. a isto chama-se expectativa, uma fidelidade para com um criador assente na admiração profunda por tudo quanto conhecíamos dele.

inland empire é, claramente, a esclerose de lynch, o momento em que já não está interessado em contar grande coisa senão a ideia base da narrativa não lógica, não sequêncial, não real. como se o filme fosse um sonho de três horas, com muito de pesadelo, e nos devessemos deixar levar em busca de algo que nunca vai ser encontrado. laura dern - maravilhosa, divina - começa por ser uma actriz algo loira que recebe em casa uma estranha vizinha que lhe dá (acho) a possibilidade de ver o dia de amanhã. a partir daí, nunca mais sabemos com certeza em que tempo exacto estamos. e isso é dito por laura dern a dada altura. no fim do filme, e como começa a ser cliché em lynch, regressamos a essa cena inicial, com a vizinha e a sua cara sinistra, e dern com ar de quem conheceu algo que, por natureza, não deveria conhecer. a sala enche-se de prostitutas que saltam de outras partes do filme para aquela e ouve-se nina simone. enfim. o que fica pelo meio é uma quantidade de entradas e saídas por portas que mudam a realidade espaço-temporal, traições amorosas, cenas de gravação de um filme romântico, jeremy irons, prostituição, decadências várias e a boca da laura dern - a melhor invenção do homem desde a roda.

a mim parece que lynch descobriu o surrealismo e regrediu a ele. ou seja, até aqui podia surrealizar sem se afundar nos seus conceitos já tão explorados. agora parece que regrediu e se quer tornar realizador de cães andaluzes no século vinte e um. não estaria de todo mal se o filme fosse brilhante e se, talvez, demorasse noventa minutos, o bastante para entendermos o que há para entender.

o facto de este ser o seu primeiro filme inteiramente digital (e ao que parece daqui para a frente será sempre assim) ajuda a que o filme adquira um estranho ar de video, com muito grão, muita sobre-exposição, enfim, um ar de série b de televisão. não sei, até por isso, se me agrada. o que ficaria interessante num apontamento, levado ao extremo de três horas retira muita da classe estética do cinema e transforma-o num exercício caprichoso de quem pode fazer o que lhe apetece optando pela pior das hipóteses: a de desprezar o espectador oferecendo-lhe um resultado pouco sedutor importado sobretudo com dar nós em personagens - não digo dar nós na história, porque na verdade todas as histórias ali se perdem.

vejam por vocês mesmos, sejam felizes se puderem, sabem que é sempre o que vos desejo