20.12.04

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U m d i a

Um dia partirei muito cansada
Com as lembranças cingidas ao meu peito
E uma voz de saudade e de nortada.

(Levarei voz para gemer de espanto.
Levarei mãos para dizer adeus...
Olhos de espelho, e não olhos de pranto,
Eu levarei. Os olhos, serão meus?)

Um dia partirei, talvez manhã.
Uma canção de amor virá das dunas.
De finas pernas, seguirei a margem
Límpida, boa, enorme, no ribeiro
De água discreta a reflectir miragem,
Braços de ramos, gestos de salgueiro.

Um dia partirei, muito diferente.
Enfim, aquela que jamais eu fora!
E os de Cá hão-de achar que vou contente.

N a t é r c i a F r e i r e
(de Rio Infindável, 1947; in Antologia Poética, Assírio & Alvim)

4 comentários:

  1. valter, este poema é lindo de mais!!

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  2. Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

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  3. eu acredito que partiu contente... os anjos disseram-me que ouvia Bach na viagem...

    é lindo o Poema!

    v. LEAL BARROS

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  4. olá! estou a ler atentamente o teu blog.
    bom natal.

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