26.2.07

os óscares são uma patacoada que o mundo come. publicidade da grande para que se promovam duas coisas: um) o cinema americano; dois) a estupidez de alguém poder ser considerado definitivamente melhor do que todos os outros em artes tão delicadamente subjectivas quanto as de representar e afins. a necessidade constante que aquele povo tem de competir e de se revelar o melhor (fascinados por aquela palavra repugnante do sucesso), é doentia, e atinge proporções bílicas no momento em que por todo o mundo se dá ouvidos ao que querem que acreditemos. este ano gostei mais de filmes orientais. mas infelizmente andam todos muito preocupados com a enésima-infinita sequela do umbiguismo americano e não devem ter tido tempo de ir ao pobrezinho cineclube do bairro. enquanto assim for, será impossível pensar em libertar as salas portuguesas (e as televisões, por arrasto), do jugo mercenário das distribuídoras do tio sam. é uma violência obrigarem as salas a adquirir pacotes infindáveis de inanidades em troca de um best-seller garantido (que a maior parte das vezes também é uma inanidade). é criminoso que com isso se impeça o cinema de outras origens de ganhar tempo de atena e, assim, crie públicos instruindo o espectador num sentido muito mais lato do que é a arte e a vida.

9 comentários:

  1. pois, mas já cantava a Adriana Calcanhotto no "porque você faz cinema": para ganhar dinheiro. ou se calhar estou a aldrabar a letra.
    aqui em Lisboa tenho saudades da moda de ciclos e reposições feitas pela zero em comportamento e familiares, lá para os idos anos de 2001, 2002... belas tardes no escurinho do cinema passei.

    e ainda: o programa de televisão dos óscares não me faz azia, é pena o fuso horário.

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  2. viste o "sonhar com xangai"? tens de ver. é um filme com todos os clichés mas no bom sentido - os namorados encontram-se num cimo do monte e a rapariga usa sapatos vermelhos no date. é um filme tão bom para quem já estava farto da ironia dos espertinhos.

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  3. Concordo que estamos completamente "cercados" pelo cinema americano, e que a política das distribuidoras (com honrosas excepções), é prcisamente essa.
    Como recordo as clássicas das 18.30 no estúdio do Império, e dos primeiros tempos em Lisboa, vendo bom cinema italiano, francês, e inglês (menos), mais o Bergman e outros clássicos.
    Tudo isso não me impede de me abstrair um pouco de toda a envolvência enjoativa das americanices da noite dos óscares, para viver intensamente, e apesar de tudo o meu gosto imenso pelo cinema.

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  4. Radiomafia27/2/07 12:43

    Valter:

    os Oscares são prémios, somente isso, coisas que se atribuem às pessoas num determinado momento, por determinado trabalho.

    prémios que resultam de escolhas individuais de um grupo de pessoas (com diversos interesses, pois claro).


    prémios que valem o que valem, e não me parece que devamos ter medo dos Oscars, "esse diabo americano".

    os Oscares são tão (pouco ou muito) importantes (e justos) como o Nobel da literatura, não achas?

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  5. não acredito no carácter inofensivo dos óscares. desculpem. ainda que uma rapariga de 25 anos que não entra nos ídolos pode depois ganhar o óscar de melhor secundária mostrando que qualquer mortal (mesmo de origens africanas) pode chegar àquela distinção. mesmo que coloquem uma apresentadora homossexual e ela seja simpática, o que os óscares fazem, e querem fazer, é reafirmar o domínio e o esplendor de uma indústria. é uma indústria que está em causa. e não me aparece interessante absorver demasiado a brincadeira, porque para nós isso só resulta em deficit de cultura; porque desprezamos mais e mais o cinema nacional, porque vemos cada vez mais pessoas incapazes de verem filmes falados em outras línguas que não o inglês. isto tem de significar algo. ah, e é claro que só me enerva isto porque adoro cinema, e porque vejo muita coisa americana, note-se, mas raramente entendo o entusiasmo.

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  6. Concordo, em parte, com o que diz se diz acima acerca do Nobel.

    Valter, imagina a frase do teu post mas da seguinte forma:

    dois) a estupidez de alguém poder ser considerado definitivamente melhor do que todos os outros em artes tão delicadamente subjectivas quanto as de ESCREVER e afins.

    faz sentido ou não?

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  7. É ingénuo, ou deliberadamente enganador, partir do princípio que a arte ou o desporto são moralmente inócuos, quanto mais os prémios que a propósito destas e de outras artes se distribuem.

    Há aquele famoso bordão do Clausewitz, segundo o qual a guerra é o prolongamento da política. Consequentemente, nós tendemos a considerar tudo, menos a política profissional e as declarações dos sacerdotes, como moralmente inócuo. Até porque a malta da minha geração, por alguma razão perversa, são quase todos doentiamente apaixonados pela transcendência e engolem tão bem a paneleirice da arte pela arte.
    A minha definição preferida da arte foi-me dada por um grande amigo:

    "Mijar é natureza, mijar no penico é cultura, mijar fora do penico é arte."

    Na verdade, a guerra não é a continuação da política, porque a política é já o reconhecimento de um estado de guerra. A política é a gestão da guerra. E os prémios, sejam de literatura ou de cinema, são eventos políticos. Embora não tenham nada a ver com arte. O que tem um prémio a ver com mictações enviesadas?

    Abraço

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  8. malta, algumas pequenas coisas,
    não falei do nobel, e se falasse não seria muito entusiasta. de todo o modo, reconheço alguma maior seriedade ao nobel, uma vez que reverte mesmo a favor de um autor e dos seus livros, e não em favor de uma indústria que seja detida pela academia sueca. digamos que no nobel há uma instituição que destaca alguém um terceiro e isso, sendo sempre subjectivo e as mais das vezes uma patacoada, é menos nojento que os óscares.
    por outro lado, meu caro tea, nesta casa todas as paneleirices são permitidas. mas compreendi o que queres dizer. é só uma questão de princípio. adorei a definição de arte. isso tem autor? é o teu amigo?
    o thomas bernard dizia que até aos 40 anos devemos aceitar todos os prémios, e a partir daí desprezá-los. isto porque até aos 40 precisamos do dinheiro que oferecem e, em princípio, depois disso podemos sustentar-nos e impor a nossa moral.

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  9. Uso o termo "paneleirice" no sentido de pose ou afectação. Não estava de todo a pensar na canção do Lou Reed.

    A definição de arte é da autoria de um amigo meu, mas suspeito de que também a plagiou num sítio qualquer. Não que isso seja mau. Afinal de contas, o plágio, como a paneleirice, são diferentes maneiras de a natureza atingir os seus fins.

    Não tenho qualquer prurido moral quanto à aceitação de prémios. Afinal de contas, alguém vai acabar por gastar o dinheiro. Detesto o ascetismo e as virtudes da renúncia. Não por causa de nenhum grandiloquente eco nietzscheano, mas porque são simplesmente virtudes inúteis.

    Abraço

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